ENTREVISTA COM ÁLVARO PORTELA- Presidente da Sonae Imobiliária 15 de Março de 2004

1.   Tendo  em  conta  a  situação  de  crise  económica  vivida  em  2003,  como  classifica  os resultados alcançados pela Sonae Imobiliária?

Numa conjuntura macro-económica adversa a nível nacional e internacional,  2003 foi ainda assim um ano de conquistas e de consolidação para a Sonae Imobiliária. Fruto de um grande empenho  de  todos  os  colaboradores  da  Empresa,  foi  possível  garantir  a  valorização  dos nossos  activos  e assegurar um crescimento sustentado. Os  números  falam por si: o Lucro Líquido cresceu 45% para € 208,7 milhões e o NAV por acção, um dos principais indicadores de uma empresa deste sector, atingiu os €29,16 com um crescimento de 5,4% relativamente a 31 Dez 02.

Facto de grande relevância no exercício de 2003, foi a criação do Fundo SIERRA, detido em 50,1% pela Sonae Imobiliária e com um capital social de  €1.080 milhões. Este Fundo surge como suporte financeiro significativo para o plano de expansão a longo prazo da Empresa, constituindo uma das maiores operações financeiras que alguma vez se realizou no sector do imobiliário Europeu.

2.   Perante as perspectivas de manutenção de uma situação económica ainda difícil em 2004, estão previstas algumas medidas excepcionais que impliquem alterações aos planos de crescimento da Empresa?

Para  2004,  o  nosso  mote  será  continuar  a  apostar  forte  na  criatividade  e  na  inovação. Pretendemos  prosseguir  a  expansão  internacional  da  empresa  no  quadro  da  já  conhecida estratégia  de  nos  concentrarmos  num  número  limitado  de  países  no  mercado  europeu  Portugal, Espanha, Itália, Alemanha e Grécia -, procurando desta forma maximizar a eficiência dos nossos recursos.

Continuaremos atentos às oportunidades de negócio noutros mercados, nomeadamente no francês,  onde  procuramos  uma  oportunidade  para  intervir  num  projecto  de  dimensão  e atractibilidade interessantes, com um parceiro de qualidade.

Mais uma vez, a ideia de focalização - de concentrarmos os nossos esforços e "know.how" no sentido  de  sermos  os  melhores  especialistas  em  centros  comerciais  e  de  lazer  -  é  uma premissa fundamental da nossa actuação, a que podemos juntar também a partilha do nosso sucesso com todos aqueles que ajudam a fazer dos centros comerciais da Sonae Imobiliária destinos de eleição.

3.   A  estratégia  de  crescimento  da  Sonae  Imobiliária  assenta,  sobretudo,  na  expansão internacional. Isto deve-se ao esgotamento da capacidade do mercado interno português ou  às  limitações  impostas  pela  legislação  vigente  ao  licenciamento  de  novas  grandes superfícies comerciais?

Pensamos que o mercado português ainda não está esgotado e temos vários projectos em desenvolvimento neste momento. O total do ABL do mercado português por habitante ainda está  ligeiramente  abaixo  da  média  europeia,  embora  seja  evidente  que  as  duas  principais cidades, Lisboa e Porto, têm actualmente uma das melhores ofertas existentes na Europa. Existem  ainda  oportunidades  de  desenvolver  projectos  de  qualidade  em  cidades  de  média dimensão mas com um óptimo potencial, como fizemos este ano em Viana do Castelo e Ponta Delgada, por exemplo.

Em termos de investimento, no entanto, é hoje evidente que a maioria dos nossos projectos se desenvolve fora de Portugal. É o resultado do nosso esforço em implantar uma estratégia de crescimento que dá igual prioridade aos investimentos em Portugal e nos outros países-alvo na Europa.

4.   Depois  da abertura, em  2003, do Parque Atlântico,  nos  Açores, do Estação Viana, em Viana do Castelo, do Coimbra Retail Park e da extensão do CascaiShopping, que outros projectos estão pensados para Portugal?

Como  é  sabido,  estamos  a  promover  o  Setúbal  Retail  Park  e  retomámos  o  processo  do LoureShopping, actualmente já em construção, depois de termos obtido, finalmente, todas as licenças  necessárias  à  sua  execução.  Estão  também  aprovados  os  investimentos  nas expansões do Centro Comercial Modelo da Covilhã e Centro Comercial Continente do Seixal.

5.   E a nível internacional, quais os projectos que estão já em fase de concretização?

Fora de Portugal temos 13 projectos em desenvolvimento, 6 em Espanha, 2 na Grécia, 2 na Alemanha, 1 em Itália e 2 no Brasil.

O ano de 2004 contará com 4 inaugurações em Espanha que consagrarão a nossa posição de liderança na Península Ibérica.

6.   Qual o valor estimado destes investimentos? Como prevê financiá-los?

No total representam um  investimento de  €  1.467  milhões  na Europa e  €  31,5 milhões  no Brasil, sendo que este valor diz respeito ao investimento   a efectuar pela Sonae Imobiliária e pelos seus parceiros nesses projectos.

O  financiamento  faz-se  por  capitais  próprios  e  "mortgage-backed,  limited  recourse  project finance",  isto  é,a  Sonae  Imobiliária  financia  os  seus  projectos  na  base  dos  seus  méritos intrínsecos. Pretende-se, assim, que cada centro comercial e de lazer seja auto-financiável, capaz de gerar rendas que deduzidas das despesas liberte meios financeiros que permitam servir a respectiva dívida,, proporcionando ainda um retorno aceitável aos accionistas.

Para  aumentarmos  a  nossa  capacidade  de  utilizar  capitais  próprios  sem  recorrer  aos accionistas,  prevemos  fazer  crescer  o  nosso  alavancamento  nos  empreendimentos  em operação, através do aumento das participações dos nossos parceiros institucionais, actuais e novos. Isto sem, contudo, perder o controlo da propriedade. O fundo Sierra foi um exemplo desta estratégia.

7.   Qual o impacto destes novos projectos no endividamento da empresa?

Actualmente,  a  Sonae  Imobiliária  tem  uma  alavancagem  de  24%  sobre  o  valor  dos  seus activos,tendo existido uma redução significativa em 2003 já que em 2002 era de 37,4%. Este é um valor bastante baixo quando comparado com outras empresas do sector na Europa. Como indicador podemos dizer que é normal uma empresa deste tipo ter uma dívida de 50% do valor de mercado dos seus activos e é perfeitamente aceitável ir até aos 60%. Não  prevemos  dificuldades  com  o  crescimento  do  endividamento,  excepto  nas  suas consequências para a nossa conta de exploração, sobretudo no actual quadro de mercado em que as instituições financeiras têm aumentado significativamente a sua margem, muito para além da diminuição das taxas de juro de referência.

8.   Em que medida a saída da Sonae Imobiliária da BVLP, em finais de  2001, influenciou a estratégia de gestão da Empresa?

A saída de Bolsa não alterou em nada a nossa actividade, quer em termos estratégicos, quer na gestão corrente. Nem  mesmo o conteúdo e fluxo de informação para o  mercado foram reduzidos. Antes pelo contrário: em 2001 introduzimos o IAS na nossa informação e em 2002 passámos a fazer avaliações semestrais dos nossos imóveis, em vez das anuais. Mas,  claro,  podemos  dizer  que  a  criação  do  SIERRA  é  a  alternativa  à  Bolsa  para  o financiamento ao nosso crescimento.

9.   Como é que a Empresa está a encarar a presença no Brasil?

É sabido que a orientação estratégica da Sonae Imobiliária está virada para a operação no mercado europeu. Mas entendemos que o Brasil é uma oportunidade a longo prazo que não queremos perder. Temos uma auto-limitação ao nosso desenvolvimento no mercado brasileiro que passa por não ter ali mais de  20% do nosso  "net asset value". A conjuntura económica naquele país exige-nos uma atitude de prudência, mas sabemos que o mercado brasileiro tem uma dimensão e um potencial extremamente interessantes. Bastará dizer que estamos a falar de 178 milhões de habitantes que têm à disposição apenas cerca de 250 centros comerciais. A economia brasileira tem vivido um período recessivo, com repercussões directas na procura de  produtos  de  consumo,  o  que  nos  tem  levado  a  tomar  uma  atitude  de  maior  prudencia quando se trata de decidir sobre novos investimentos. Esperamos que no decorrer de 2004 se confirme a  esperada retoma do consumo  privado,  de forma  a que possamos  evoluir desta nossa posição actual.